terça-feira, 5 de outubro de 2010

O que é ensinar? Quem é um professor?[1]
Humberto Maturana[2]

Maturana - Alguma outra pergunta?

Um aluno - Sim, Professor. O que é um professor? Ou, quem é um professor?

Maturana -Hummm (pausa)

Platéia - (risos)

O professor Maturana escreve no quadro negro: PROFESSOR – MESTRE.

Maturana -E, portanto, está aqui. Creio que aqui aparece este conceito. O que é ensinar? Eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer? Sim, se alguém abre a porta desta sala...(O Professor Maturana desloca-se até a porta, simula ouvir alguém que bate à porta e em seguida se desculpa, e diz a outro alguém) ... “Nesta sala está o Professor Humberto Maturana ensinando Biologia do Conhecer”.

O professor Maturana desloca-se de volta.

Maturana -Eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer? Em um sentido, com relação à responsabilidade perante a Faculdade, eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer.

Platéia - (Risos)

O professor Maturana prossegue, propondo perguntas e suas respostas:

Maturana -Mas o que fizemos nós ao longo deste semestre? Desencadeamos mudanças estruturais. Desencadeamos mudanças estruturais, desencadeamos perturbações. E como fizemos isso? Em coordenações de coordenações de ações. Em coordenações de coordenações de ações. Ou, seja: vivendo juntos. Claro, uma vez por semana, viver juntos uma hora, uma hora e meia, duas horas, ou, alguns estudantes que permaneceram comigo mais horas... isso era viver juntos. Vocês podem dizer “sim, mas eu estava assentado escutando”. Isso se é que estavam verdadeiramente escutando, como espero que tenham estado.

Platéia - (Risos)

Maturana -Estavam sendo tocados, alegrados, entristecidos, enraivecidos... quer dizer, aconteceram aqui todas as coisas do viver cotidiano. Mexeram com as idéias, rejeitaram algumas. Saíram daqui conversando isto e mais aquilo. “Estou fazendo um trabalho”. Estavam imersos na pergunta: “Como prosseguir de acordo com o que lhes ia acontecendo, vivendo juntos, comigo, em um espaço que se ia criando comigo?” Então, qual foi a minha tarefa? Criar um espaço de convivência. Isto é ensinar.

O professor Maturana escreve no quadro: “Criar um espaço de convivência”.

Maturana -Bem eu ensinei a vocês. E vocês, ensinaram a mim? Sim. Claro que sim! Ensinamos-nos mutuamente. “Ah, mas acontece que eu tinha a responsabilidade do curso. E ia guiando o que acontecia. “De certa forma, sim, de certa forma, não. De certa forma sim, porque há certas coisas que eu entendo da responsabilidade e do espaço no qual me movo nesta convivência e tinha uma certa orientação, um fio condutor, um certo propósito. Mas vocês com suas perguntas, foram empurrando esta coisa para lá, e para cá, e foram criando algo que foi se configurando como nosso espaço de convivência.

E o maravilhoso de tudo isso é que vocês aceitaram que eu me dedicasse a criar um espaço de convivência com vocês. Vocês se dão conta do significado disso? Foi exatamente igual ao que ocorreu quando vocês chegaram, como crianças, no jardim de infância. Estavam tristes, emburrados, a mamãe se foi e vocês ficaram chorando: “aaahh, eu quero minha mãe”. E, chega a professora, oferece-lhes a mão. E vocês a recusam. Mas ela insiste. E então vocês pegam sua mão. E o que acontece quando a criança pega a mão da professora? Aceita um espaço de convivência.

Com vocês ocorreu a mesma coisa. Em algum momento, aceitaram minha mão. E, no momento em que aceitaram minha mão, passamos a ser co-ensinantes. Passamos a participar juntos neste espaço de convivência. E nos transformamos, em congruência... De maneiras diferentes, porque, claro, temos vidas diferentes, temos diferentes espaços de perguntas, temos experiências distintas. Mas nos transformamos juntos, e agora podemos ter conversas que antes não podíamos.

E quem é o professor? Alguém que se aceita como guia na criação deste espaço de convivência. No momento em que eu digo a vocês “Perguntem!”, e aceito que vocês me guiem com suas perguntas, eu estou aceitando vocês como professores, no sentido de que vocês me estão mostrando espaços de reflexão aonde eu devo ir.

Assim, o professor ou professora é uma pessoa que deseja esta responsabilidade de criar um espaço de convivência, este domínio de aceitação recíproca que se configura no momento em que surge o professor em relação com seus alunos. E se produz uma dinâmica na qual vão mudando juntos.


[1] Transcrição do trecho final da aula de encerramento do curso “Biologia del Cocnocer”, ministrado por Humberto Maturana na Faculdade de Ciências da Universidade do Chile, em 27/07/90. Aula gravada por Cristina Magro (UFMG); transcrição e tradução por Nelson Vaz (UFMG).
[2] Humberto Maturana R. é professor de Biologia na Universidade do Chile. Uma das figuras mais controvertidas da Biologia e da Filosofia contemporâneas. É autor de idéias revolucionárias sobre a natureza dos seres vivos, da convivência e linguagem.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Para ler, refletir e debater

Atualizar a pedagogia face ao mundo mudado


Leonardo Boff

Séculos de guerras, de confrontos, de lutas entre povos e de conflitos de classe nos estão deixando uma amarga lição. Este método primário e reducionista não nos fez mais humanos, nem nos aproximou mais uns dos outros e muito menos nos trouxe a tão ansiada paz. Vivemos em permanente estado de sítio e cheios de medo. Alcançamos um patamar histórico que, nas palavras da Carta da Terra, "nos conclama a um novo começo". Isto requer uma pedagogia, fundada numa nova consciência e numa visão includente dos problemas econômicos, sociais, culturais e espirituais que nos desafiam.

Esta nova consciência, fruto da mundialização, das ciências da Terra e da vida e também da ecologia nos está mostrando um caminho a seguir: entender que todas as coisas são interdependentes e que mesmo as oposições não estão fora de um Todo dinâmico e aberto. Por isso, não cabe separar mas compor, incluir ao invés de excluir, reconhecer, sim, as diferenças mas também buscar as convergências e no lugar do ganha-perde, buscar o ganha-ganha.

Tal perspectiva holística vem influenciando os processos educativos. Temos um mestre inolvidável, Paulo Freire, que nos ensinou a dialética da inclusão e a colocar o "e" onde antes púnhamos o "ou". Devemos aprender a dizer "sim" a tudo aquilo que nos faz crescer no pequeno e no grande.

Frei Clodovis Boff acumulou muita experiência trabalhando com os pobres no Acre e no Rio de Janeiro. Na esteira de Paulo Freire, entregou-nos um livrinho que se tornou um clássico: "Como trabalhar com o povo". E agora face aos desafios da nova situação do mundo, elaborou um pequeno decálogo daquilo que poderia ser uma pedagogia renovada. Vale a pena transcrevê-lo e considerá-lo pois nos pode ajudar e muito.

1."Sim ao processo de conscientização, ao despertar da consciência crítica e ao uso da razão analítica (cabeça). Mas sim também à razão sensível (coração) onde se enraizam os valores e de onde se alimentam o imaginário e todas as utopias.

2. Sim ao "sujeito coletivo" ou social, ao "nós" criador de história ("ninguém liberta ninguém, nos libertamos juntos"). Mas também sim à subjetividade de cada um, ao "eu biográfico", ao "sujeito individual" com suas referências e sonhos.

3. Sim à "praxis política", transformadora das estruturas e geradora de novas relações sociais, de um novo "sistema". Mas sim também à "prática cultural" (simbólica, artística e religiosa), "transfiguradora" do mundo e criadora de novos sentidos ou, simplesmente, de um novo "mundo vital".

4. Sim à ação "macro" ou societária (em particular à "ação revolucionária"), aquela que age sobre as estruturas. Mas sim também à ação "micro", local e comunitária ("revolução molecular") como base e ponto de partida do processo estrutural.

5. Sim à articulação das forças sociais sob a forma de "estruturas unificadoras" e centralizadas. Mas sim também à articulação em "rede", na qual por uma ação decentralizada, cada nó se torna centro de criação, de iniciativas e de intervenções.

6. Sim à "crítica" dos mecanismos de opressão, à denúncia das injustiças e ao "trabalho do negativo". Mas sim também às propostas "alternativas", às ações positivas que instauram o "novo" e anunciam um futuro diferente.

7. Sim ao "projeto histórico", ao "programa político" concreto que aponta para uma "nova sociedade". Mas sim também às "utopias", aos sonhos da "fantasia criadora", à busca de uma vida diferente, enfim, de "um mundo novo".

8. Sim à "luta", ao trabalho, ao esforço para progredir, sim à seriedade do engajamento. Mas sim também à "gratuidade" assim como se manifesta no jogo, no tempo livre, ou simplesmente, na alegria de viver.

9. Sim ao ideal de ser "cidadão", de ser "militante" e "lutador", sim a quem se entrega, cheio de entusiasmo e coragem, à causa da humanização do mundo. Mas também sim à figura do "animador", do "companheiro", do "amigo", em palavras pobres, sim a quem é rico de humanidade, de liberdade e de amor.

10. Sim a uma concepção "analítica" e científica da sociedade e de suas estruturas econômicas e políticas. Mas sim também à visão "sistêmica" e "holística"da realidade, vista como totalidade viva, integrada dialeticamente em suas várias dimensões: pessoal, de gênero, social, ecológica, planetária, cósmica e transcendente."

Publicado em: http://www.adital.com.br/. Dia 13.09.10.